Vamos falar sobre “Adolescência”.
No geral, achei mediana. Talvez pela minha expectativa de algum plot twist de tirar o fôlego, quando a realidade já é apresentada no primeiro episódio de forma inquestionável.
Penso que a minha expectativa também me levou a aumentar muito o foco no tema da masculinidade adoecida e misógina que hoje se esparrama nas redes sociais. É um tema importante da série? Claro que é, mas – na minha visão – não é o ponto focal mais importante.
Assim como várias outras situações isso é visto de passagem. O uso das redes sociais pelos adolescentes, o bullying, a sexualização, o comportamento abobado dos meninos, tudo isso é mostrado, mas não se aprofunda. Nem sequer no crime a série se aprofunda!
É uma série curta, tem quatro episódios, e talvez isso explique não verticalizar tanto.
Então por tudo isso achei uma série boa, nada de excepcional ou genial. Round 6 na primeira temporada me deixou muito mais de queixo caído.
Mas duas são as preciosidades dessa série. A linguagem de plano sequência em que cada episódio é fruto de uma filmagem contínua e sem cortes. Isso é sensacional! Até mesmo na filmagem aérea depois de sair da escola, indo para o estacionamento onde o crime foi cometido, não houve cortes. A equipe de filmagem – que sempre contava com vários cinegrafistas se revezando – acoplou a câmera ao drone que faz a tomada aérea. Para ser desacoplada pela equipe em terrra no segundo set. Genial.
Eu percebi nitidamente meu desconforto com a falta de “respiro” em cada episódio. E isso é uma linguagem genial, que transmite informações pelos códigos – palavras, gestos, olhares – e também pela escolha de não ter cortes. Muitas vezes, principalmente no último episódio, eu era levado a estar participando daquele passeio da família, mesmo não querendo. Eu buscando me distanciar e sendo levado pelos corredores da loja em completo desagrado.
Como se o diretor nos pegasse pelos braços e dissesse “Você vai ver, não vai se ausentar, você vai ver!!!”.
E o que mais me impactou e que para mim dá o tom da série: Stephen Grahan, que criou a série e interpreta o pai de Jamie. Ele brilha desde o primeiro episódio e faz a entrega de uma carreira no último episódio. Brilhante, Genial. Eu o conheci em “Snatch – Porcos e Diamantes”, filme de Guy Ritchie, em que ele interpreta Tommy, The Tit, que é quase um boboca.
Que diferença desse pai. Brutal. Curioso saber que a última cena em que ele desmorona emocionalmente contou com um truque da equipe de direção e filmagem: eles colocaram fotos da família do ator com bilhetes de estímulo e confiança no set de filmagem, e isso ajudou a destruir a armadura emocional que aquele pai carrega a maior parte da série.
E esse para mim é o grande tema da série: o papel do pai. Como pai de adolescentes que sou eu me identifiquei com a sensação de querer ter feito mais, de estar sempre insatisfeito com o que eu realizei, e esse peso é devastador. A expressão do pai no quarto de Jamie na última cena da série é algo que corta nossa alma.
No fim das contas e depois de tudo que eu disse a obra se mostra com mais brilho em encantamento do que realmente tem. Assista sem expectativas, porque mesmo sendo um marco na cultura pelos temas e abordagens, é uma série que não se pretende tão gigante.
Se tornou gigante pelo impacto que causou. E que bom que tenha causado.
Há braços!
Eduardo Mesquita